A construção da narrativa da vocação agropecuária de Mato Grosso

    A construção da narrativa da vocação agropecuária de Mato Grosso   

PORTELA, Lauro

O desenvolvimento da exploração econômica do estado de Mato Grosso esteve sempre ligado aos movimentos de expansão e retração dos mercados capitalistas das potências industriais.Essa condição periférica e pouco desenvolvida levou o então presidente do estado Caetano de Albuquerque, em 1916, a dizer dos mato-grossenses como sendo “naturalmente ricos e economicamente pobres.”

Neste sentido, não foram raros os que viam em Mato Grosso a barbárie de uma terra distante, cheiade mestiços e selvagens; mas também a viam como o potencial do que só poderia ser feito, à despeito da população nativa, pelo braço estrangeiro devido à exuberância natural. Essas imagens (a pessimista e a ufanista) se misturavam nos discursos de viajantes, autoridades políticas e membros da elite local.

Talvez, uma das vozes mais famosas tenha sido a de Maria da Glória Gomes da Silva Pereira Leite, a baronesa de Vila Maria. Esposa de Joaquim José Gomes da Silva, o barão de Vila Maria e seu primo em segundo grau, a baronesa pertencia à família Pereira Leite cuja propriedade, a “Fazenda do Firme”, deu origem ao distrito pantaneiro da “Nhecolândia” (seu filho, Joaquim Eugênio Gomes da Silva, o “Nheco” herdou a fazenda batizando o atual distrito corumbaense). Após a Proclamação da República, a baronesa dirigiu ao marechal Deodoro da Fonseca uma carta questionando a capacidade dos habitantes do vasto território de Mato Grosso (que à época, compreendiam além do atual Mato Grosso, os territórios dos atuais estados de Rondônia e de Mato Grosso do Sul) em desenvolver as potencialidades econômicas da região. Propunha d. Maria da Glória Pereira Leite a integração do estado ao território de São Paulo para que fosse civilizado.

Passados os tempos do ouro de aluvião com as manchas encontradas no Coxipó do Ouro (1719), Lavras do Sutil (1722), Vale do Guaporé (1734) que deram ensejo ao processo de espacialização por não-índios dos territórios indígenas, o século XIX foi marcado por um processo de rearranjo das forças produtivas. Após a Independência e a constituição do território brasileiro, Mato Grosso passou a ser uma das províncias do novo país: distante, com poucas comunicações terrestres (sendo a mais famosa o Caminho de Goiás), mais acessível pelas vias fluviais (rios Guaporé e Paraguai) e com a população espalhada por seu imenso território (cravado no centro do continente e fronteiriço com a Bolívia e com o Paraguai).

Extrativismo

Até a chegada do regime republicano (1889), dependeu Mato Grosso da dotação do Governo Central do Império, predominando a importação dos bens consumidos na então província. A partir da última década do século XIX, o extrativismo dominoua pauta de exportações. Produtos como a poaia (Psychotria ipecacuanha), a erva-mate (Ilex paraguariensis) e a borracha. Estes produtos eram coletados utilizando-se pouca ou nenhuma técnica sofisticada com uso de mão de obra barata; e eram escoados para fora do estado pelas vias fluviais deixando quase nenhuma riqueza, além das fortunas individuais. O declínio da exploração extrativista se deu a partir da década de 1910. Nas imagens desta exposição, constam cenas do Vale do Guaporé (atual Rondônia), onde atuou a Guaporé Rubber Company, além do stand mato-grossense na“Exposição da Borracha”, em 1913. No primeiro caso, as imagens deixam ver as condições de trabalho na extração do látex: barracões onde os seringueiros adquiriam seus apetrechos e víveres, endividando-se junto aos donos dos seringais ou das empresas proprietárias; o uso da mão de obra infantil.

Pecuária

Com o advento da I Guerra Mundial (1914-1918), a demanda por proteína nas potências centrais (Europa Ocidental e Estados Unidos) refletiu em investimentos de capitais estrangeiros (argentino, uruguaio e belga) na pecuária, no então Sul de Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul). O gado pantaneiro (resistente às intempéries da região), o baixo custo da produção e o baixo preço da terra atraíraminvestidores para o Pantanal. Não à toa, as imagens buscam evidenciar a qualidade do gado mato-grossense, a criação extensiva e a vastidão das propriedades, com planos inteiros e enquadramentos bem abertos. No caso das charqueadas, o motivo das imagens era ressaltar a estruturafísica das empresas, em outras palavras, a capacidade de processamento e embarque do charque. Em todas as imagens, é possível perceber as condições de trabalho da lida do gado. É onde aparecem os peões apartando o gado ou posando aparamentados ao lado de cavalos e touros premiados.

Produção Agrícola

A produção agrícola se restringiu ao mercado interno. Mesmo as usinas de açúcar do vale do rio Cuiabá (rio Cuiabá Abaixo) ou no rio Paraguai (Cáceres) produziram para o consumo nas áreas urbanas de Mato Grosso. No entanto, as autoridades estaduais viam no fomento da agricultura uma possibilidade de desenvolvimento econômico.

Na década de 1910, foi criada a “Diretoria da Produção” e a ela se subordinava o “Campo de Demonstrações” (localizado na atual Alameda Júlio Müller, em Várzea Grande). Esta instituição tinha o propósito de fomentar a produção de sementes e testar técnicas agrícolas, empregando também jovens e crianças aprendizes. Nos anos 1920, o “Campo de Demonstrações” é extinto e o local de aplicação agrícola é doado ao Governo Federal para a criação de um “Campo de Sementeira”.Estas instituições desenvolveram, além de sementes, enxertos de frutas (como a laranja), plantio de espécie de milhos, além de testar técnicas de plantio.

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